

Na minha acção pastoral como padre, uma das realidades na qual experimento a mais prodigiosa manifestação de Deus é na visita a pessoas em situações de sofrimento como a doença ou a solidão. São tantas as vezes em que vejo claramente o Senhor a actuar e a conceder a consolação e paz a quem está na experiência dramática da sua fragilidade.
A importância do sacerdote, nesses momentos de dor, é muito especial e de uma densidade difícil de explicar em termos humanos. Não importa se é novo ou velho, se é muito ou pouco erudito, porque o que conta é Aquele que nele se manifesta e actua poderosamente.
O sacerdote não tem poderes mágicos para curar o sofrimento, nem receitas simples para ultrapassar os problemas e muito menos respostas rápidas à experiência atroz do sofrimento, mas é a presença sacramental, visível e eficaz de um Amor maior que a dor e de um Senhor que não abandona aqueles que n’Ele confiam.
O padre pela sua vocação divina tem uma graça especial de fazer presente esta solicitude divina pelos seus filhos e de ser iluminado por uma Palavra divina que, não sendo mágica, é salvadora porque ilumina e dá sentido quando todas as palavras humanas são poucas para apaziguar quem se encontra numa situação de abismo existencial.
O cristão fiel à sua vocação baptismal sabe que a sua vida terrena é transitória e passageira para uma plenitude onde se encontrará numa eternidade com Deus e, por isso, também ele pode comunicar e testemunhar a quem vive a doença e a solidão que na sua vida só encontrará a paz se aceitar a sua história e se confiar àquele que é o Senhor da vida.
Qualquer pessoa humana, tenha ou não a graça da fé, experimenta que a sua maior realização está em amar e ser amado e dessa forma não pode deixar de se mostrar visível a quem se encontra débil e desanimado perante as amarguras da vida a sua presença amorosa e solícita.
A dor e o sofrimento não devem ser encarados como azares da vida que estamos sempre à espera que não nos aconteçam, mas como momentos preciosos de humanidade para quem os experimenta e simplesmente não se resigna ou revolta.
Para quem os vive na primeira pessoa, são ocasiões de reflexão e discernimento sobre a vida, aquilo que nela se procura, as opções e caminhos que se têm tomado e dessa forma ou optar uma conversão futura se for esse o caso e a vida lhe der essa oportunidade, ou em caso contrário ficar agradecido por aquilo que se construiu e esperar que os outros que partilham da sua alegria permaneçam consigo na memória e no coração, aos outros que acompanham e vivem a angústia de ver sofrer quem amam ou querem bem é também ocasião de revelarem a sua humanidade naquilo que ela tem de mais sublime, que é o de viver não para si mas para quem a vida pôs a caminhar ao seu lado. Não se pode “sofrer por” mas pode-se “sofre com” e nesses momentos experimentar a grandeza do amor humano que vence os próprios limites daquilo que nos considerávamos capazes de fazer e enfrentar.
Num mundo onde as experiências da dor e do sofrimento são rejeitadas, onde os fracos e débeis são remetidos para situações de marginalidade e solidão angustiantes, é urgente exercitar a capacidade de estar ao lado daquele que sofre não numa atitude de resignação e de pena, nem na procura de omitir a dureza do sofrimento com falsas esperanças e fracos paliativos de alegria. Animados pelo sentimento humano mais profundo de solidariedade que Deus inscreveu em todos nós, mostrar se o rosto da misericórdia divina que se compadece da pessoa que sofre e não a deixa só.
A verdade é que na dor e no sofrimento o homem pode encontrar a sua maior dignidade!
Padre Ricardo Franco