
Há uma “Era do Vazio” a erguer-se na nossa sociedade, não apenas nos grandes centros urbanos (que alguns ainda pensam afastados e longínquos…), mas que já vai sendo visível também na Lourinhã.
Da pré-modernidade, caracterizada pelo teocentrismo, em que Deus dava o sentido último ao agir humano, algo ainda característico das zonas rurais e das pessoas mais idosas, passou-se há algumas décadas, no nosso meio, para a modernidade, do antropocentrismo, em que o Homem substituiu Deus no âmago do sentido da vida, preservando-se, contudo, os princípios éticos decalcados da fase anterior, que garantem a estabilidade do social. É esta a realidade da chamada geração de meia-idade da nossa terra.
Contudo, no seio da geração mais jovem, vai já sendo visível a emergência da pós-modernidade, em que no cerne do agir humano não está Deus nem o Homem, simplesmente não está nada, restando, como afirma Lipovestky, o hedonismo, a vontade de prazer imediata, quer seja por meio do álcool, de outras drogas ou do sexo, ou então a adesão às modas “vanguardistas” (quer sejam de carácter social, político ou sexual). E é esta “Era do Vazio” que se ergue, em que os primeiros sintomas já são visíveis, no concelho, com os adolescentes a consumirem álcool, tabaco e haxixe cada vez mais precocemente, procurando a felicidade, um sentimento que Deus colocou no coração de todo o ser humano, mas da forma errada. Um processo histórico que se desenrolou ao longo de séculos nos países mais evoluídos, demorou décadas a concretizar-se na nossa região.
Não posso indicar aos jovens com que tenho falado sobre estas questões, em diversos contextos, nem a outro ser humano, como podem atingir a sua felicidade, porque cada percurso de vida é singular e tem as suas especificidades próprias, mas tenho a certeza que passa pelo recuo a referências da pré-modernidade, embora o mundo possa colocar o epíteto de “retrógado”, “atrasado” ou até de “beato”. Passa certamente pela humildade, por sair-se do seu “eu”, porque quem vive apenas para si muito provavelmente encontrará o vazio e a infelicidade. Passa certamente por um caminho de encontro com um projecto de felicidade criado para cada Homem (e que muitas vezes é complexo descobrir, exigindo uma relação pessoal com o divino), que é livre de aceitá-lo ou não dentro do seu livre arbítrio, e com as limitações e fraquezas inerentes à condição humana…
Tiago Oliveira, Lourinhã