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De regresso a casa

 “Trazemos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso.”  (2 Cor 4, 7). Estas palavras de São Paulo servem de lema de vida a muitos dos que são escolhidos por Jesus para serem seus ministros, presenças vivas d’Ele o Bom Pastor. A eleição de Deus é sempre um desígnio misterioso, e a história que faz connosco vai muito além dos nossos projectos e das nossas capacidades. Quem é cristão, e procura viver a partir da fé, experimenta isso em muitos momentos da sua existência terrena. Os padres, ministros ordenados, conhecem essa verdade na medida em que dão a sua vida ao serviço do Povo de Deus para que seja sempre o próprio Cristo a agir e a realizar a sua obra de salvação de toda a humanidade.

Os vasos de barro” são a metáfora mais apropriada para descrever a sua fragilidade e como, apesar disso, a Graça da Vida de Jesus se oferece a todos os que a procuram e a aceitam receber como dom divino. Contudo, por vezes a fragilidade do ministro é mais visível que o tesouro de que são depositários. Os pecados públicos dos padres são feridas abertas no Coração de Cristo e ocasiões de escândalo, pedras de tropeço, para quem ama a sua Igreja.

A Escritura revela-nos como Deus não desiste do pecador: “Vinde agora, entendamo-nos - diz o Senhor. Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve. Mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã.” (Is 1, 18). O Amor de Deus, a sua Misericórdia, são a realidade definitiva da existência do homem. Sem este poder, sem esta graça do perdão todos estaríamos condenados a ficar prisioneiros do mal. A pensar e a viver como se não houvesse remédio para a nossa fragilidade, para a nossa condição de tantas vezes cairmos onde nunca desejámos estar. São Paulo traduz esta nossa situação dramática de forma impressionante: “Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico.” (Rom 7, 18-19)

Ao longo da minha vida como padre sou testemunha de como Deus não desiste de ninguém e, tal como o Pai da parábola do Filho Pródigo, sempre espera de braços abertos aqueles que querem converter-se, mudar de vida, e regressar a sua casa. Ele tem sempre uma festa preparada que dá vida a quem se deixou enganar e experimentou a amargura da morte do pecado. Sempre que recebo alguém que regressa ao sacramento da reconciliação depois de muito tempo distante sem procurar a confissão dos pecados para ser perdoado e regenerado no Amor de Deus, começo sempre por dizer ao penitente: “Hoje aqui há um milagre e uma festa no céu!”

Jesus diz no Evangelho: “Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.” (Lc 15, 7) A justiça de Deus revela-se sempre no salvar a pessoa. Jesus odeia o pecado, mas ama o pecador. Esta é a verdade da Misericórdia divina que tem o poder de mudar a história e salvar o mundo.

Nos últimos anos, o Senhor serviu-se de mim para trazer de volta à sua casa um padre, que depois de muitas escolhas erradas tinha deixado tudo e abandonado a vida sacerdotal. Foi um tempo de purificação, de deixar que o vaso entretanto quebrado fosse reconstruído pela Graça de Deus, de aprender a humildade de confiar no discernimento da Igreja na pessoa dos bispos e entregar-se totalmente à vontade de Deus sem expectativas de datas ou prazos, mas confiando que o tempo e a história são sempre Ele que os conduz. Depois de um longo caminho, de muitos momentos de combate com a dor do mal cometido, e de despojamento diante da misericórdia do Pai, este padre foi de novo acolhido e integrado na comunhão plena da Igreja no uso de todas as faculdades do ministério ordenado. No primeiro Domingo do Advento, deste ano litúrgico, voltou a celebrar a Eucaristia como sacerdote. Comoveu-se e comovemo-nos com tão grande alegria. Contudo, os desígnios de Deus são insondáveis, e no dia 18 de Fevereiro deste ano, o filho voltou à casa do Pai na eternidade revestido no seu corpo com a veste sacerdotal.

Obrigado Pe. Jorge Reis por me mostrares de forma tão intensa e expressiva na tua vida como a Misericórdia de Deus tem o poder de nos curar e fazer novo o que estava destruído. Obrigado por me ajudares a ser melhor padre, e por todo o trabalho que generosamente fizeste para a Paróquia da Lourinhã, nomeadamente, na sua abertura às tecnologias de comunicação virtuais e na criação inspirada do belíssimo logotipo para nos identificar a todos. Obrigado pelo teu zelo em estares sempre pronto a servir e pela forma extraordinária como leste a leitura do sacrífico de Isaac na Vigília Pascal de 2020. Obrigado pelo exemplo de humildade em tantas circunstâncias, e pela tua boa disposição e vontade de nos fazer rir com os trocadilhos da vida e da história. Acredito e espero um dia encontrar-te no céu. Descansa em Paz.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1298 - 5 de Março de 2021