Pesquisa   Facebook Jornal Alvorada
Assinatura Digital

Login na sua conta

Username *
Password *
Lembrar-me

Criar uma conta

Campos marcados com (*) são obrigatórios.
Nome *
Username *
Password *
Confirmar Password *
Email *
Confirmar email *
Captcha *
Reload Captcha

É urgente mudar as prioridades e os critérios!

A dignidade de uma pessoa não tem preço. Impressiona que em sociedades ditas desenvolvidas, como a que vivemos, se possa desprezar os direitos humanos mais básicos para se poder ganhar dinheiro. A ditadura do lucro impõe-se como uma inevitabilidade terrível e a fraqueza de muitos é explorada pelos interesses egoístas de alguns. O nosso mundo está repleto de injustiças, de violência e opressão, a maioria das vezes por causa de interesses económicos.

Entristece-me que muitos considerem que ganhar a vida seja apenas o ganhar dinheiro. É uma mentira! O dinheiro é uma coisa necessária e será boa se contribuir para o bem. A beleza da vida não está no acumular riqueza, mas no saber partilhar com quem tem menos. A felicidade que ninguém nos pode tirar é a que nasce do quanto podemos fazer uns pelos outros. O que escrevo não é uma utopia, nem palavras sem contexto no real, mas o horizonte que nos permite encontrar sentido para a nossa existência.

Todos sabemos que não levamos nada deste mundo, mas a nossa memória será guardada e até celebrada se a nossa vida foi portadora de bem para os outros. A mentira da cultura hedonista é fazer acreditar que o bem-estar, o disfrutar do tempo presente, são a finalidade e o objectivo que nos faz levantar todos dias.

A exploração dos emigrantes, a situação dos refugiados, e a administração danosa de algumas instituições bancárias em Portugal são apenas alguns dos exemplos escandalosos da ditadura dos interesses de quem não se importa com os outros, idolatra o dinheiro, e não se importa com as consequências nefastas que possa ter na sociedade. As pessoas deixaram de contar.  

A justiça humana parece incapaz de resolver esta tendência maléfica do homem que vive para servir o dinheiro, sem olhar a meios. É impossível continuar a pactuar com uma cultura que não olha a custos para atingir interesses egoístas. Em muitas situações parece que quem tem de fazer justiça tem os olhos tapados, tal como a representação tradicional da mesma, e nem procura ver para não ter que decidir em favor dos mais fracos. A impunidade dos culpados é reveladora de uma justiça em decadência.

Viver subjugado a esta ditadura do ter mais e acumular é a forma de não saber o que é a liberdade que só o amor pode dar. É urgente que como sociedade, que não se quer destruir pela obsessão dos bens materiais, aprendamos a estabelecer prioridades, a termos critérios claros e objectivos sobre o que importa e como concretizá-los.

Entristece-me ver como os culpados do mal prefiram justificar as suas opções erradas, para não terem que sofrer as consequências do que fizeram, e mudar a sua forma de agir. Escandaliza como haja quem julgue merecer prémios de serviço realizado quando nem sequer conhecem bem a realidade do trabalho que devia exercer e não se importa que os resultados do que fez sejam ruinosos. E muitos dos que contribuíram directamente para o desastre, seja este humanitário ou financeiro, se mostrem incapazes para assumir seriamente os erros praticados. É assustadora a soberba que demonstram, quase de gozo, pelas instâncias que regulam a actividade económica e financeira.  

A pandemia podia ser uma ocasião favorável para se crescer em solidariedade, compromisso social, partilha generosa do pouco de muitos, responsabilização em favor do bem comum, contudo, o medo e a insegurança incapacitam para sair do vazio e fazer tudo por amor. Quando aprendemos amar gratuitamente descobrimos a razão primeira pela qual fomos criados.

A propósito de tudo isto, o Papa afirma de forma contundente que, como sociedade, devemos enfrentar corajosamente a cultura do descartável: uma “cultura que nos ameaça continuamente. Viver descartando o que nos incomoda, o que nos sobra, o que nos impede de ter mais e mais. E, contra essa cultura do descartável, viver a cultura do receber, do acolher, da proximidade, da fraternidade. Hoje, mais do que nunca, somos solicitados a ser fraternos”.

Pe. Ricardo Franco
Edição 1303 - 21 de Maio de 2021