Pesquisa   Facebook Jornal Alvorada

Assinatura Digital

Investigação com participação do Museu da Lourinhã revela história dos ursos pardos pré-históricos

urso gruta foontainhas dr

Um novo estudo científico liderado por investigadores da Universidade NOVA de Lisboa, em colaboração com o Museu da Lourinhã, a Universidade da Corunha e a Universidade de Bucareste, revelou novos dados sobre a evolução dos ursos pardos (Ursus arctos) em Portugal durante o Pleistoceno, demonstrando que alguns exemplares atingiram dimensões excepcionais e que a espécie sofreu uma redução significativa de tamanho ao longo dos milénios.

Publicado na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, o trabalho analisou mais de 500 fósseis provenientes de seis importantes jazidas portuguesas - Furninha, Fontainhas, Serra de Molianos, Caldeirão, Escoural e Oliveira - permitindo reconstruir a história evolutiva da espécie na Península Ibérica Ocidental.

Uma das principais conclusões do estudo é a confirmação da ausência, até ao momento, de vestígios do urso das cavernas (Ursus spelaeus) e do urso negro asiático (Ursus thibetanus) no registo fóssil português, revelou o Museu da Lourinhã num comunicado enviado ao ALVORADA.

Entre as descobertas mais relevantes destacam-se os exemplares da Gruta da Furninha, em Peniche, datados de há cerca de 80 mil anos. Alguns destes animais ultrapassavam os 300 quilos e apresentavam características físicas invulgarmente robustas.

Os ursos da Furninha desenvolveram membros particularmente robustos e algumas características anatómicas semelhantes às observadas nos ursos das cavernas, o que sugere uma possível convergência ecológica num território onde os verdadeiros ursos das cavernas parecem ter estado ausentes”, refere a equipa de investigação.

Ainda mais impressionante foi a identificação de um exemplar proveniente da Gruta das Fontainhas, no Cadaval, datado de há aproximadamente 30 mil anos. Com um peso estimado em cerca de 385 quilos, este indivíduo é considerado um dos maiores ursos pardos fósseis alguma vez documentados.

Este exemplar destaca-se como um dos maiores ursos pardos conhecidos no registo fóssil europeu, embora apresentasse uma constituição mais esbelta do que os seus antecessores da Furninha”, salientam os autores.

O estudo mostra, contudo, que estas dimensões gigantescas não se mantiveram ao longo do tempo. Os investigadores identificaram um declínio progressivo do tamanho corporal dos ursos pardos desde o final da Idade do Gelo até à actualidade.

Enquanto os machos do início do Holocénico pesavam em média cerca de 260 quilos e as fêmeas 140 quilos, os actuais ursos pardos ibéricos apresentam pesos médios significativamente inferiores: cerca de 140 quilos nos machos e 100 quilos nas fêmeas.

Segundo os investigadores, a pressão humana, nomeadamente através da caça e da destruição dos habitats naturais, poderá explicar parte desta redução.

O primeiro autor do estudo, Darío Estraviz-López, destaca a importância dos resultados para futuras investigações. “Este trabalho estabelece uma base sólida para novos estudos sobre os ursos fósseis portugueses, incluindo análises de ADN antigo e estudos isotópicos que permitam reconstruir a sua dieta e compreender melhor a sua ecologia”.

Grande parte dos fósseis analisados encontra-se actualmente catalogada e preservada no Museu Geológico de Lisboa. A investigação resulta da tese de doutoramento de Darío Estraviz-López, financiada integralmente pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), e contou ainda com a participação das paleontólogas Ana García-Vázquez, María Ríos e Aurora Grandal-D’Anglade.

Texto: ALVORADA com comunicado do Museu da Lourinhã
Fotografia: Direitos Reservados